Lives da quarentena: novas conexões entre marcas e consumidores

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Este período de quarentena e distanciamento social já está mudando o mundo, e a forma como público e marcas interagem. Sem consumidores lotando lojas e shoppings para comprar “do jeito tradicional”, as empresas precisaram dar um jeito de continuarem presentes na vida das pessoas.

Pessoas estas que, se tiverem juízo, estão fechadas em suas casas para ajudar a conter o avanço do coronavírus. A questão é: ficando em casa, as pessoas não estão consumindo tanto. E convenhamos, ficar em casa pode ser bem chato. Mais do que nunca, as pessoas querem consumir entretenimento, algo que lhes traga alegria, sem que elas precisem tirar o pijama/sair de casa.

Entretenimento ao vivo

As lives surgem, então, como filhas bastardas da quarentena: uma nova forma de artistas se conectarem com seu público, com shows transmitidos ao vivo pela internet. As lives começaram com uma cara mais “caseira”, mais intimista, mas aos poucos estão se tornando grandes produções audiovisuais.

Na gringa, grandes artistas como Lady Gaga e Rolling Stones aderiram ao movimento. Aqui no Brasil, as lives sertanejas são as mais comuns (Gusttavo Lima foi um dos pioneiros), mas nos últimos dias, vimos Fresno, Sandy & Junior, Raça Negra, e até o rei Roberto Carlos se rendendo a este “novo” formato de experiência ao vivo.

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Roberto Carlos comemorou o próprio aniversário na live.

As “lives da quarentena” tornaram-se um hábito curioso do público nesta época atípica que estamos vivendo. E, claro, onde houver audiência, haverá publicidade. Assim, vemos grandes marcas de bebidas, apps de entrega e lojas de departamentos patrocinando essas transmissões.

Publicidade ao vivo

As marcas querem ajudar a levar entretenimento para as pessoas, claro. Mas, obviamente, estão interessadas também em estarem presentes, serem lembradas. Lives transmitidas pela internet não são como programas de TV, onde os intervalos comerciais fazem parte do pacote. Assim, precisa-se dar um jeito de marcar presença. Pode ser uma hashtag, um produto na mesa, uma almofada no chão ou um grande freezer ao fundo… o que interessa é aparecer.

Em caso de sucesso, é uma situação onde todos ganham: o público ganha entretenimento, o artista ganha espaço para mostrar seu trabalho, e a marca ganha visibilidade.

A renda de marketing de diversas empresas, que, no mundo pré-pandemia, iria para o intervalo do futebol, do telejornal ou da novela, foi para as lives da quarentena. E as cifras são astronômicas: o colunista Leo Dias afirma que teve acesso a alguns valores, que começam em R$ 60 mil para “um agradecimento” na live do Wesley Safadão (que tinha outros valores, de acordo com o tipo de conteúdo produzido para a marca) e chegaram aos R$ 500 mil na apresentação da Marília Mendonça.

Tretas ao vivo

Por ser algo muito novo, porém, há muita coisa que ainda não está clara para os envolvidos: já teve sertanejo enchendo a cara ao vivo, e o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) foi acionado para tomar um partido sobre a situação.

Considerando que as lives da quarentena não têm restrição de idade, nem nenhum tipo de aviso, os comportamentos apresentados pelos artistas podem não ser os mais adequados para todos os públicos, e uma marca pode acabar tendo sua imagem prejudicada, caso o anfitrião “passe dos limites”.

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Consumo de álcool na live: pode isso, Arnaldo?

Após a repercussão negativa de algumas ações, e de “denúncias recebidas de dezenas de consumidores”, o Conar limitou-se a afirmar que “não cuida do conteúdo artístico” das apresentações, e que sua atuação “está restrita à análise de anúncios cujos responsáveis pactuaram em produzi-los e veiculá-los dentro dos limites da ética”. Na prática, em se tratando de lives, nem eles sabem ao certo onde acaba o entretenimento e começa a publicidade.

Entram nesse rolo até legislações de internet e propriedade intelectual que para muita gente, são novidades. O Youtube andou derrubando conteúdos de artistas que inventaram de fazer covers em suas lives. Se eles não são “donos” da música, não podem tê-la publicada na plataforma sem o consentimento do compositor ou da gravadora responsável. O Google (dono do Youtube) aciona os interessados, e são eles quem decidem se o conteúdo fica ou não no ar. A internet, afinal, não é a “terra sem lei” que as pessoas acham.

Solidariedade ao vivo

Ainda não dá para saber como este período de quarentena afetará os hábitos de consumo das pessoas, mas é fato que as marcas que estão fazendo alguma coisa para estarem presentes na vida das pessoas durante este período sem dúvida serão lembradas quando tudo isso passar, e todos pudermos retomar nossas atividades cotidianas.

um toque de branding nisso, afinal, branding envolve marcar a vida das pessoas, e construir uma imagem positiva através de ações, atitudes e sensações. Se as lives da quarentena vieram para nos ajudar a passar por este período difícil, ótimo. Se há marcas que aproveitaram a deixa para anunciar, e de quebra, proporcionar entretenimento, ótimo também. Se rolar solidariedade no meio, melhor ainda!

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A live dos irmãos Sandy & Junior arrecadou quase R$ 2 milhões em doações.

Felizmente, a quarentena tem se mostrado um período em que empresas estão redescobrindo a solidariedade, e deixando aflorar um lado mais humano, mais caridoso: praticamente todas as lives da quarentena arrecadam doações, que são convertidas em alimentos e cestas básicas para quem precisa. Em outra boa sacada de solidariedade (e branding), empresas de transporte se oferecem para cuidar da logística e do envio das doações. Todo mundo ganha: o público recebe diversão sem sair de casa, as empresas mostram a cara, e os necessitados recebem ajuda.

Se tem algo “de bom” que veio com a pandemia, é isso: o mundo está percebendo que nunca é tarde para se estender a mão, ter empatia. O coronavírus não vai acabar com o capitalismo, mas talvez consiga transformá-lo em algo diferente. Algo melhor. Ao menos é nisso que eu quero acreditar.

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